TecnoZilla

O bicho-papão tecnológico!

06 julho
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Ser especialista nas áreas de tecnologia [o que é, de verdade, não, sério mesmo]

Piada sobre dinheiros e mídias sociais

Piadas (via TheNextWeb) à parte.

A grande maioria das pessoas não reconhece um especialista. Não o reconhece simplesmente porque não sabe quais são as qualidades necessárias para ser especialista em uma área que não é a sua própria. E, por isso, entre outras peculiaridades da área, querem pagar R$ 400,00 reais por um site e R$ 10.000,00 reais por uma “consultoria em mídia social”.

(Se vocês estiverem interessados em saber sugestões de preços na área, gosto desta aqui: http://tecnodesign.wordpress.com; e eu sugiro hora técnica entre R$ 80,00 e R$ 100,00 reais. Sem “choradinha”. Ou trabalha-se de graça, ou trabalha-se pelo preço integral.)

Por quê?

Um advogado não tem a menor ideia de quais são as habilidades necessárias para ser médico. Um médico não entende o que é preciso para ser matemático. Mesmo alguém que entenda de física não saberá o que é preciso para ser um engenheiro de software.

Penny não reconhece as qualidades de Sheldon. Sheldon não reconhece as qualidades de Penny.

Ser especialista é como conhecer um território. Alguns conhecem todo o território, pois já viajaram muito. Outros conhecem apenas sua vizinhança. E os piores, apenas aprenderam a ler o mapa. Mas quem nem sabe ler o mapa, não sabe identificar se o outro conhece o território ou está só lendo o mapa. Complicou?

É dessa falta de compreensão que muito se aproveitam. Para fazer de conta que é especialista, tudo que uma pessoa precisa é conhecer como se mover na área.

É o que acontece quando a criança aprende a mexer no computador e, em quinze dias, torna-se um especialista em “computador”. Configurar Word e Excel, instalar a impressora, fazer uma foto entrar no e-mail pra poder mandar pra lá. Sua senha não entra? Chama o sobrinho que ele sabe. Precisa de uma página na internet? Um blog? Um site de vendas online? Meu sobrinho faz por 150 pila!

Só que isso é “saber ler o mapa”. Tudo que esse pequeno pseudo-especialista está fazendo é “lendo o mapa”.

O processo pode-se resumir em:

      1. procure uma imagem na tela que pareça estar relacionada com o problema;
      2. clique;
      3. solucionou o problema?
        3.1 se sim, parabéns.
        3.2 se não, retorne ao começo.

Depois de executar esse loop várias vezes, procure uma ajuda com F1 ou escreva o problema no Google e leia a solução online.

Pronto, você é um “especialista” em computador. E se “tiver” um Twitter, é um especialista em mídias sociais também.

Regras locais

Eis a pessoa que se considera especialista:
pseudo-especialista

O pseudo-especialista é alguém que reconhece o ambiente onde está. Sabe falar a língua. É como se ele soubesse que paredes não podem ser atravessadas e que se ganham pontos ao passar pelas bolinhas do pac-man. Mas é isso. Ele não sabe onde está no mapa. Não reconhece o tamanho completo do mapa e, portanto, não pode nem reconhecer sua própria ignorância.

Há uma pesquisa (indicada ao igNóbil) demonstrando que os 12% piores em qualquer área supõem que sua própria capacidade está acima de 65% (entre os 35% melhores). Ou seja, idiotas sempre acham que sabem tudo. Sempre.

Mapa local

O problema de só se conhecer as regras e o mapa local é que torna-se impossível saber em que lugar do mapa se está. Quero dizer, qual desses mapas é o correto, conforme o que se sabe do especialista da figura anterior?

Pseudo-especialista 1:
pseudoespecialista

Pseudo-especialista 2:

Pseudo-especialista 3:

Pseudo-especialista 4:

Na imagem, a posição correta é a do último pac-man. Mas não é possível saber apenas usando as informações locais. Há uma “dica”, por haver uma parede fechada ao lado esquerdo. Mas há uma parede acima, que indicaria (pela mesma regra) que está no topo do mapa.

A questão é que o especialista de verdade precisa conhecer o ambiente. Isso vem com tempo e experiência. Não adianta dizerem que os jovens são quem entende de computador.

Quando dizemos que um jovem aprende mais fácil a mexer em computadores, significa que eles andam tateando sem medo de errar, enquanto os mais velhos morrem de medo de o computador explodir se apertarem o botão errado. Mas não esqueçam que a minha geração (tenho 30 anos) já vive com computadores desde pequeno. Nossos pais tiveram a oportunidade de mexer em cartões perfurados. Nossos avós, máquinas lógicas com lâmpadas e fusíveis. O computador não é tão novo assim.

A questão é:

Quanto mais o especialista conhecer o território:

Melhor saberá lidar com os problemas e melhor poderá decidir quais os objetivos corretos:

Mapa total

Até ter domínio completo de sua área:

Moral da história: Não confie em gordinhos tateando no escuro.

Esse artigo foi escrito por Maurício Piccini. Ele é gaúcho de Porto Alegre, pesquisador na área de jogos digitais, estudando narrativas aplicadas a análise de games para tese de Doutorado. Fundador da empresa de desenvolvimento de software JETTA DdS Ltda..

 

5 comentários sobre “Ser especialista nas áreas de tecnologia [o que é, de verdade, não, sério mesmo]”

  1. Eduardo disse:

    Excelente analogia, Maurício.
    Parabéns

  2. Samuel disse:

    Muito bom o post! Só não entendi a parte dos gordinhos tateando no escuro…:)

  3. [...] esse post para aproveitar a oportunidade de conectar o raciocício com o do especialista do post da semana passada. Saber o tamanho do mapa importa para nosso cérebro, pois nos permite compreender o quanto não [...]

  4. demerval disse:

    muito bom, principalmente a parte de “medo de explodir se apertar um botao errado” hehehe
    acontece ainda, que os q sabem ler o mapa, em determinadas regioes cobram como se fossem especialistas (nivel gedi)

  5. Eduardo Alves disse:

    O texto está excelente, e tudo o que você relatou ai é a mais pura verdade!!! Essa realidade ainda vai demorar a mudar!!!!

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