O cliché: livros são bons, internet é ruim
Nesse artigo do New York Times, David Brooks repete a mesma ladainha: livros são bons, internet é ruim; livros ajudam a aprender, internet deixa o aluno desleixado.
Eu concordo. Mesmo sendo um assíduo frequentador das enciclopédias virtuais, dos blogs de tecnologia, dos sites sobre educação e das redes sociais de networking profissional, eu concordo que a internet atrapalha o desenvolvimento intelectual.
O que eu não concordo é com os supostos motivos de isso ocorrer.
A resposta cliché, repetida no artigo do NYTimes, é que a internet é plana, enquanto os livros possuem uma hierarquia. Bobagem! Livros não possuem hierarquia. Meus livros ficam na estante distribuídos alfabeticamente. Em nenhum lugar está dito qual é melhor que os outros. Não há uma hierarquia, como diz David Brooks, em que começamos por baixo, nos livros mais simples, e chegamos aos clássicos no topo. Livros no mundo real estão distribuídos da mesma forma que a internet distribui os sites: por preferência do público.
Isso mesmo, livros mais comprados são mais apresentados a novos compradores. Livros mais lidos estão em mais bibliotecas. E, se clássicos tivessem lugar privilegiado, não teríamos tantos livros de “auto-ajuda” nas prateleiras das livrarias.
Há lixo na internet da mesma forma que há lixo escrito em livros, e o fato de estarem em livros não faz o lixo “melhor”.
Agora, há sim uma diferença no processo de leitura em um livro e na internet: profundidade de leitura.
O livro físico nos diz, só por olharmos para ele, qual o limite do que há ali escrito, até onde o conteúdo chega.
É só isso! Mas essa diferença é fundamental para nossos cérebros: ler, pesquisar, estudar na internet é como começar a construir um prédio sem saber se é uma sala, uma casa ou uma catedral. Quando encontramos informação “suficiente”, nos entediamos e paramos de ler. Isso não acontece no livro.
Para ler um livros, sabemos o tamanho da missão. Às vezes, ela é difícil, cheia de obstáculos. Às vezes, ela é plana, simples e direta. Mas nosso objetivo está ali. Sabemos quando chegamos ao fim. E sabemos que, se pararmos antes, há “um tanto assim” de conhecimento que não adquirimos.
Escrevo esse post para aproveitar a oportunidade de conectar o raciocício com o do especialista do post da semana passada. Saber o tamanho do mapa importa para nosso cérebro, pois nos permite compreender o quanto não sabemos.
Há diferença no meio, não no conteúdo. E estamos apenas aprendendo a lidar com ela.
Link para o NYTimes The medium is the medium
Links dos artigos citados por David Brooks http://www.nber.org/papers/w16078, http://www.usatoday.com/news/education/2010-06-01-summerreading01_st_N.htm
Esse artigo foi escrito por Maurício Piccini
. Ele é gaúcho de Porto Alegre, pesquisador na área de jogos digitais, estudando narrativas aplicadas a análise de games para tese de Doutorado. Fundador da empresa de desenvolvimento de software JETTA DdS Ltda..


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