Browse By

Dar liberdade ao jogador é ruim, diz a antiga grande mídia

“A violência de algumas torcidas organizadas está sendo estimulada por jogos de computador no mercado pirata.”

Não sei como começar a explicar a quantidade de coisas erradas com essa frase. Imprecisão, generalização, “chute”, falta de pesquisa, sem falar de associação errada de ideias. Não ajuda a notícia terminar com uma psicóloga como única voz em defesa dos games, mas ela afirma que o jogo é produto de uma sociedade violenta e ainda assim estimula a violência.

A primeira premissa presente em todas as notícias veiculadas sobre games pela grande mídia, premissa a qual eu gostaria de eliminar de uma vez por todas, é a de que jogadores não têm escolhas, senão a de jogar um videogame violento.

Comecemos por definir que jogo é esse. As imagens apresentam uma adaptação de GTA San Andreas. Adaptação que pode ser feita pelos próprios jogadores através dos conhecidos “mods” (“modifications” – modificações em inglês). Ou seja, o game San Andreas, da série GTA, foi alterado por um fã para apresentar camisas dos times de futebol e alguns cenários reconhecíveis (como arquibancadas de um campo de futebol). Não é possível dizer se houve mais “modificações”.

Essa informação é importante principalmente para entender que não é a Indústria de games que produz e distribui jogos em que torcedores de futebol matam uns aos outros – muito menos torcedores de times brasileiros. O que ocorre é que jogadores independentes criam ambientes para disputas usando as mecânicas dos jogos. Evitando defender cegamente os games, a mecânica de jogo do game GTA é, sim, violenta. Os jogadores precisam roubar carros, explodir casas e matar pessoas. E, embora o jogo reitere que são ações contra a lei, também recompensa os jogadores por essas ações.

“Indícios de crimes”, diz a reportagem. É possível. Mas também seriam crimes contra a paz pública quando crianças brincam de “polícia e bandido” ou atiram umas nas outras com pistolas de água. O jogo em si não produz alterações no mundo real. Apenas aquelas chegam ao nosso mundo as alterações que passam pela mente dos jogadores. Talvez com a evolução dos acessórios de jogos, Wii, Kinect e PSMove, possamos dizer que há alterações também no corpo do jogador. Mas essas, até hoje, são mínimas.

O fato de as ações nos games serem compreendidas como “indícios de crimes” indicam, com certeza, que a justiça (ou a opinião pública) não entendem o jogo como algo fora do mundo real. Isso é o mais interessante do que se pode tirar dessas reportagens. É comum que a retórica dos jogos (a ideologia presente nos videogames) seja regulada muito mais do que o jogo em si.

Pensem comigo, quantos pais proíbem a quantidade de horas que um filho pode passar na frente do “aparelho” de televisão, esteja o aparelho ligado em um programa de TV a cabo, passando videoclipes, conectado à internet ou servindo como monitor para games violentos? Quantos pais proíbem o uso do computador para navegação da internet sem supervisão? Ficar sentado, curvado, comendo salgadinho durante horas é extremamente agressivo para o corpo humano. Ainda assim, a atividade em si não é vista como algo ruim. O mais comum é querer impedir que o conteúdo seja apresentado às crianças.

Não há uma cultura de questionamento. Não há discussão sobre o conteúdo dos games. Há proibições e preconceitos.

Aliás, GTA foi proibido no Brasil? Qual deles? Quando? Por quem? Qual o motivo da proibição? A última notícia que tivemos dá conta de que GTA: Episodes foi proibido por causa de uma música que teria sido utilizada irregularmente pela produtora do game. Vimos isso aqui no TecnoZilla.

Reação de independência

Por que se formos discutir, teremos argumentos contrários, que queremos que fiquem escondidos, claro! Como exercício, sugiro que utilizem a seguinte lógica para discutir com seus amigos, pais, professores e jornalistas sobre a violência nos games:

O jogo foi produzido por um fã para retratar a violência das torcidas, certo? Então, em primeiro lugar, alguém sentou na frente do computador por horas CRIANDO. Alguém investiu seu tempo aprendendo a programar, a desenhar roupas digitais para as personagens, a criar ambientes virtuais e a instalar servidores para jogar em grupo. Alguém investiu seu tempo aprendendo e criando. Logo, esse “game violento” estimula a criatividade e a educação, certo? Em segundo lugar, embora não menos importante, o jogo serviu como válvula de escape para a briga entre as torcidas. Quer dizer, alguém criou um jogo em que os torcedores se encontram para trocar socos, pontapés, facadas e até tiros VIRTUAIS. Em vez de os torcedores se agredirem no mundo real, eles encontram, no jogo, um espaço para disputa inofensiva (ou pelo menos muito menos ofensiva do que uma briga de torcidas real).

Liberdade de escolha e liberdade moral

Esse tipo de argumento não encontra espaço na grande mídia, porque não interessa que o público de games tenha voz e opinião. No fundo, o princípio que está oculto é o de que o jogador não escolhe, não tem opinião nem liberdade de agir como bem entender. Lembrem-se que jogos, por mais que gostemos de achar que retratam a realidade, não são reais. Nem o futebol representa ações reais. O jogador que xinga o árbitro não necessariamente xingaria o juiz de direito. Mentir para o adversário não constitui falha moral, mesmo que odiemos os argentinos por sua catimba.

Gostamos de pensar que os valores retratados pelos jogos são reais

Na verdade, gostamos de pensar que todos os valores retratados são “reais”. Por isso, a atriz que faz a mocinha em uma novela é sempre melhor recebida pelo público do que a atriz que faz a vilã. Não importa se o papel de vilã é tão importante quanto o da mocinha para criar a atmosfera moral da novela. Gostamos de achar que a pessoa que interpreta a boazinha é boa, e a que interpreta a mulher má é má. Mas isso já é outra história.

Jogos agressivos não refletem valores morais dos jogadores. O que eles fazem é trazer à tona a existência da violência. Talvez seja isso que estejamos querendo evitar. Queremos evitar que nossos filhos vejam que existe violência no mundo. Isso! Ou talvez ignorar a existência de violência no mundo seja mais fácil que lidar com ela no mundo real.

(vídeo via guilhermegamer do gamerpoint.com.br)

One thought on “Dar liberdade ao jogador é ruim, diz a antiga grande mídia”

  1. Pingback: Tweets that mention Dar liberdade ao jogador é ruim, diz a antiga grande mídia - TecnoZilla -- Topsy.com
  2. Trackback: Tweets that mention Dar liberdade ao jogador é ruim, diz a antiga grande mídia - TecnoZilla -- Topsy.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.